fevereiro 19, 2009

A Arte de Ser Feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como reflectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles
Em homenagem a quem sabe olhar assim.
19/Fev.

4 comentários:

Castanha Pilada disse...

Sempre simpatizei com a Cecília!
Tenho uma prenda (só um bocadinho envenenada) lá na banca das castanhas.

Anónimo disse...

O paradigma da felicidade! Lindo sem dúvida!Na actualidade um pensamento deste género só para gente "frontalizada"...Só Egas moniz conseguiu explicar tal fenómeno.
Parabéns.

Patricia Lousinha disse...

Menina, ora aqui tens:
http://adaeternum.blogspot.com/2009/02/tambem-tu-brutus.html
Vá... Mente como se não houvesse amanhã!

Unknown disse...

Não sei dizer como, mas hoje parei por aqui e li.
Sincéramente gostei. Conseguiu passar uma linda mensagem que nos faz viver.
Obrigado, pois outra coisa não sei dizer