
Recordo aquele dia em que fui à casa da Rosa. Uma casa nova construída sobre uma casa de campo, muito antiga.
Daquelas casas de aldeia do início do século passado.
Não era a casa de sonho dela. É certo.
Ela até tinha um terreno excelente, no centro da freguesia, para construir a casa dos seus sonhos.
Um terreno que, segundo ela, dava até para construir duas casas de quatro frentes.
Mas decidira fazer a vontade ao marido. Era a casa onde ele tinha nascido. A casa dos pais. E ele tinha muito gosto nela.
Ele gostava daquela casa como um princípe gosta do seu palácio.
Ela detestava a casa. O buraco onde estava implantada e a falta de condições da mesma.
Mas a Rosa, pelo seu Princípe, fez dessa casa o seu Palácio.
E com as economias de uma vida inteira de sacríficios, lá foi construindo passo a passo o seu Palácio.
Cada tijolo, ali colocado, cada parede, cada detalhe foram feitos pelas mãos da Rosa e do seu Princípe.
Anos e anos sem férias, anos e anos de trabalho a ocuparem os momentos de lazer na construção da sua casa.
Todas as economias estavam ali. No chão que se pisava, nas guarnições das portas e das janelas, nas louças, na cozinha.
Os cortinados pagos com as gorjetas de motorista de longo percurso. Quando o seu Princípe levava as pessoas a viajar, por essa Europa fora, Paris, Amesterdam, Madrid. Sim, porque ele chegava a ganhar mais com as gorjetas do que de ordenado.
Pagavam muito mal e ele andou nessa vida mais de 30 anos. Afastado dos seus, por longos períodos de tempo.
Mas dessas viagens trazia sempre boas gorjetas, depois de descontado o valor do presente que sempre comprava para a Rosa.
É que a Rosa colecciona perfumes. Tem dezenas de perfumes. Intactos. Não os usa, porque não sai. Mas ela adora. Os frascos, a cor, o cheiro se calhar também. Tem todos numa vitrine, especialmente adquirida para o efeito.
Dizia-me a Rosa, no dia em que fui a casa dela, que agora, aproximando-se a reforma, o que queria era um tempinho para dar uns passeios com o seu Princípe. Que adorava viajar, mas nunca tinha ido a lado nenhum.
A reforma chegou. Agora. Este ano.
O seu Princípe morreu hoje, sábado, às seis da tarde, no IPO.
O seu Principe era o meu Querido Primo Manuel.